
Um filme que une Fernando Meirelles, o diretor brasileiro mais famoso internacionalmente, e a ficção de José Saramago, único escritor de língua portuguesa a ganhar um Nobel, tinha tudo para ser perfeito. Bem, quase... A crítica meteu o pau em “Ensaio sobre a Cegueira” na abertura do Festival de Cannes esse ano.
Fui ver o filme ontem e achei, pelo menos tecnicamente, muito bom. Provavelmente ele tem o que os críticos chamam de “vícios de publicitário” do diretor de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. Para os "cineastas de raiz” a palavra publicitário é uma ofensa, enquanto pra mim os tais “vícios e firulas” foram responsáveis por alguns dos melhores momentos do filme.
Uma das coisas que eu mais gostei foi ter passado pela Avenida Paulista no caminho para o cinema e logo depois ver São Paulo representando uma cidade imaginária, com atores japoneses, brasileiros e “anglo saxões”. Um filme realmente global.
Já algumas questões no filme são incômodas, como a passividade dos personagens. Eu pensava: “Me dá esse roteiro aqui que eu vou fazer diferente. O ser humano nesse filme é muito escroto!”. Mas aí em certos momentos nos perguntamos: também não ficamos indiferentes diante de diversas questões sociais? É essa reflexão que irrita o espectador.
Se você acha que arte foi feita para inspirar e deixar uma sensação agradável, não veja o filme. Ou pensando bem, não acredite em nada que eu falei. Afinal, para alguns não devo saber julgar filmes. Sou publicitário.
José Saramago viu e gostou.

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